<i>Duocracia</i>

Anabela Fino
A provecta idade, que é aquilo a que se chega com um bocado de sorte e muita persistência, tem a vantagem de fornecer um manancial de memória nada desprezível quando chega a hora de fazer comparações. Por exemplo, quem viveu no fascismo lembra-se que então reinava por cá a paz podre da repressão e da exploração, que a liberdade tinha a perna curta dos lápis da censura, pelo que muitos fizeram a mala e zarparam.
Com a revolução de Abril tudo mudou. Portugal abriu as portas ao mundo e tempos houve em que foi possível voltar. O Sol foi de pouca dura. A contra-revolução ganhou terreno, voltou ao Poder e paulatinamente foi reinstaurando (e ainda o está a fazer) a velha ordem capitalista, sob a larga capa da democracia, que ao fim de 33 anos de mau uso foi encolhendo, encolhendo e deu nesta duocracia actualmente em vigor.
As consequências estão à vista: Portugal dá de novo ao mundo cada vez mais portugueses, o que faz da emigração o nosso maior produto de exportação, e no País só quase à lupa se encontra coisa que não seja made in qualquer outro lugar. Protestam os pescadores, os agricultores, os metalúrgicos, os professores, os funcionários públicos, os polícias e os militares, os jovens e os menos jovens, as mulheres e os homens, mas os duocratas andam tão entretidos nos seus negócios, nas suas falcatruas, nas suas corrupções, nas suas vidas de luxo que nem dão conta da sangria que grassa no País real. Não dão conta, quer dizer... Em ano de eleições mandam as boas práticas que se fale às massas prometendo mundos e fundos e pintando de cor-de-rosa todos os cenários, por mais negros que sejam. A última novidade saída esta quarta-feira do forno PS é a promessa de uma conta poupança de €200 a cada novo bebé nascido em Portugal que só poderá ser movimentada quando o petiz completar 18 anos. Chamam-lhe uma «conta futuro» para fazer de conta que o futuro está na banca. Do salário condigno dos pais, do posto de trabalho, da habitação, da saúde, da educação, da cultura... nem uma palavra. É caso para dizer que é pouca uva para tanta parra. Assim como assim, mais vale ir nascer à vizinha Espanha, onde os bébés já vêm com €2500 no «cordão umbilical».


Mais artigos de: Opinião

Duas Crises

Quando a grande crise económica do capitalismo eclodiu, governos e propagandistas do sistema apressaram-se a despir as camisas que até à véspera envergavam. De grandes arautos do capitalismo selvagem passaram repentinamente a críticos verbais da «ganância», da «cultura de risco», dos «excessos» que, diziam, estavam na...

A vigarice

A 7 de Outubro de 2007, o primeiro-ministro José Sócrates proclamava solenemente, na cerimónia de lançamento do projecto de uma fábrica de pilhas de hidrogénio para produção de energia, e à frente de uma luzidia delegação governamental: «Há poucos em todo o mundo a fazer aquilo que a partir de agora se vai fazer aqui em...

A História não se repete, mas…

A História não se repete, mas tem por vezes coincidências interessantes. Sendo a História obra dos homens que, no desenvolvimento da luta de classes, que não cessa e se aprofunda, determinam e continuarão a determinar a marcha da Humanidade, há que olhar atentos para ela e dela retirar ensinamentos que nos permitam ver para além da espuma da actualidade.

Para lá de Lisboa

A operação de António Costa a pretexto da cidade de Lisboa está bem para lá das suas fronteiras. À boleia da cidade, e dos muitos e sinceros vínculos de amor a Lisboa que animam muitos dos que nela vivem ou a que ela estão ligados, o que o PS tem em construção pela mão do seu número dois – agora de serviço à estratégia...

O bons espíritos encontram-se sempre

O ex-ministro Manuel Pinho foi alvo de mais uma homenagem – desta vez por iniciativa de uma centena de empresários que louvaram os excelentes serviços por ele prestados enquanto sobraçou a pasta da Economia.Esta foi a segunda homenagem a Manuel Pinho, desde que este, por razões de todos conhecidas, se demitiu do cargo de...